domingo, 8 de julho de 2007

A LAMA NOSSA DE CADA DIA

O homem pega sua canoa, dois remos compridos, com sacos de nylon trançados de uns 20 litros, cheios de garrafas PET tapadas vazias, pendurados e ligados por uma corda, rema até entre 50 a 100 metros da orla, onde enfinca os remos juntos na lama do fundo das águas escuras da lagoa e amarra a canoa na ponta deles. A partir de que sente que está bem amarrada o homem mergulha, vai lá no fundo, são mergulhos de 2 a 2,5 metros de profundidade, enfia suas duas mãos, cavando um buraco, na lama e ergue a massa em direção ao seu peito e sobe rapidamente para a superfície, levanta a massa até a altura da borda da canoa e joga para dentro o volume de lama que fora possível trazer. E volta a mergulhar, dezenas de vezes, enquanto a canoa começa a afundar com o peso de tanta lama, fica flutuando graças aos sacos com garrafa PET que agem como bóias; entre vários mergulhos, apalpa agressivamente a lama, separando-a do marisco fino e comprido, em cachos; e mais esporadicamente, sobe na canoa e movimenta os pés em ‘pedaladas’ consistentes, diluindo a lama que se esvai com o movimento das águas, nesse momento o movimento de suas pernas lembra um motor, liquidificando aquela porção heterogênea, separando o sururu da lama. Isso durante 4 a 6 horas por dia, todos os dias. O pescador de sururu de Maceió e a lama da lagoa Mundaú têm a benção eterna do cotidiano paralelo: como o pássaro que mergulha pra caçar, como o caranguejo que vive mais intensamente a lama, hora afundado, hora emergido, hora entocado, hora escondido, enfim, mergulha pra ganhar o seu pão.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

FOTOS SOBREPOSTAS
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FOTOS SOBREPOSTAS
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OUTRA FOTO-FUNDIDA
Enquanto isso, na sala da justiça...
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UM ENGANO: UM RETORNO MAGNÍFICO

segunda-feira, 25 de junho de 2007

TREMINHÕES



Reclamo demais do mundo. Não gosto da evolução. Detesto o trânsito. Acho o fim da picada o que aconteceu com as ferrovias brasileiras - viraram sucatas - enquanto as indústrias de caminhões faturam milhões e tornam as estradas mais perigosas e esculhambadas, além da poluição desses novos dragões, em alta velocidade, cortando o Brasil de norte a sul. Esse da foto tem 21 metros de comprimento, saiu de repente do meio do canavial. É realmente um 'treminhão', um gigante afrontando um universo de nanicos. O gigante com cargas e os nanicos com famílias. O gigante, que deveria estar sobre trilhos, aterroriza e desasossega. O nanico, coitado, é esmagado se se meter a besta. Mas a besta é o Satanás, é um ícone do mal, é o monstro... Não existe graça nas façanhas desequilibradas pelo fascínio do consumismo urbano... A segurança que os humanos criaram para si diante a natureza transformou-se em sua principal ameaça... E... agora... voltar a natureza é uma missão impossível. A urbanidade é tudo para todos. Das cidades ninguém quer sair... Virar bicho novamente ?!... Nem pensar... Em verdade nós nem sequer sentimos mais nossa função animal... somos além animais... muito mais que qualquer coisa... Criamos nossos próprios Deuses e a independência do pensar... A lei de Darwin: os mais fortes sobreviverão... Sinto-me uma formiguinha, sozinha, rodopiando com minhas migalhinhas e sempre voltando para o meu lar... Assisto na televisão as autoridades, os mitos e a sedução de uma publicidade racista, preconceituosa, negligente e canalha, de linguagem chula, a humilhar os milhares de miseráveis que também habitam este mesmo mundo... Não adianta ! Todos os políticos só querem 'se dar bem', aquela coisa da lei de Gerson, que só gosta de levar vantagem... É insuportável assistir a esmagadora realidade dos pequenos nesse universo: dos pequeninos automóveis diante esses monstruosos 'treminhões' nas estradas aos miseráveis das grotas e beira de mangue diante esses políticos e empresários em suas extravagantes ações desleais e egocêntricas...